O Gavião e o Estranho no Ninho
Quando menino, não me cansava de ouvir minha avó dizer que o gavião era do mal porque roubava pintinhos das galinhas. Um dia, vi com meus próprios olhos: o pássaro rasgou o céu com um pintinho órfão que andava na sombra da minha avó. Ouvi os piados agonizantes da vítima entre as garras do caçador até desaparecer por detrás da serra. O som daquele Piu-Piu atravessou minha infância como ferro em brasa. Desde então, o gavião tornou-se para mim um inimigo, um demônio alado.
Ainda menino, vi outro descer sobre o quintal e voar com um pardalzinho descuidado para cima de um poste. Com meu estilingue, acertei-lhe uma pedra. Ele caiu do poste, atordoado, soltando das presas o pardal assustado. Prendi o gavião entre meus dedos. A raiva acumulada me cegou. Amarrei-o de asas abertas nos varais da carroça. Chamei os moleques da rua. Fizemos dele alvo de nossas pedras até que seu peito se calou. O guincho desesperado foi substituído pelo silêncio. Depois, queimamos seu corpo e enterramos as cinzas. Só então senti que minha fúria estava saciada. Que eu estava certo.
Décadas depois, já adulto, executivo de terno voltando do trabalho, encontrei um filhote de gavião dentro do carro. Um acaso. Levei-o para casa, alimentei-o dentro de uma gaiola. O gavião cresceu e tornou-se um belíssimo pássaro. Não me cansava de admirá-lo, até que decidi libertá-lo. Jogava-o ao ar e ele pousava de volta em minha mão. Nem ao menos tentava voar para longe. Não conhecia a liberdade.
Foi então que compreendi: o gavião nasceu para enxergar longe, voar alto, caçar para sobreviver. Suas garras e sua visão são dons da natureza. Cada vez que caça para se alimentar, cumpre sua função: manter o equilíbrio do ambiente, controlar populações de pequenos animais, preservar o ciclo da vida. O gavião não é monstro; é parte da engrenagem invisível que sustenta a Terra.
Mas aquele filhote, privado de aprender, não foi ensinado a desenvolver suas habilidades. Consequentemente, tornou-se dependente de mim, incapaz de viver por conta própria. Assim também são os homens. Quem não desenvolve suas capacidades naturais — aprender, criar, pensar, ousar — torna-se dependente dos que souberam usar seus cérebros. Uns voam alto, outros rastejam presos ao chão. Uns enxergam longe, outros vivem cegos.
E aqui está o contraste brutal: o gavião, ao caçar, contribui para o equilíbrio da natureza. O homem, ao explorar, desequilibra. O gavião é filho da Terra; nós somos estranhos no ninho. Alienígenas que devastam, acumulam riquezas inúteis e deixam rastros de destruição.
O fogo que consumiu o corpo do gavião na infância era o reflexo da chama que consome o planeta na vida adulta. O silêncio das cinzas era o prenúncio do silêncio das florestas devastadas. O gavião não é e nunca foi o inimigo. O inimigo sempre fomos nós.
A lição final foi dura: o verdadeiro monstro não é o gavião. O monstro é o ser humano sem consciência, que esquece de desenvolver suas próprias asas e, em vez de equilibrar, corrói o planeta que o sustenta.
Josué Gonçalves de Araujo - SP/2005
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