O Gavião e o Estranho no Ninho Quando menino, não me cansava de ouvir minha avó dizer que o gavião era do mal porque roubava pintinhos das galinhas. Um dia, vi com meus próprios olhos: o pássaro rasgou o céu com um pintinho órfão que andava na sombra da minha avó. Ouvi os piados agonizantes da vítima entre as garras do caçador até desaparecer por detrás da serra. O som daquele Piu-Piu atravessou minha infância como ferro em brasa. Desde então, o gavião tornou-se para mim um inimigo, um demônio alado. Ainda menino, vi outro descer sobre o quintal e voar com um pardalzinho descuidado para cima de um poste. Com meu estilingue, acertei-lhe uma pedra. Ele caiu do poste, atordoado, soltando das presas o pardal assustado. Prendi o gavião entre meus dedos. A raiva acumulada me cegou. Amarrei-o de asas abertas nos varais da carroça. Chamei os moleques da rua. Fizemos dele alvo de nossas pedras até que seu peito se calou. O guincho desesperado foi substituído pelo silêncio. Depois, queimam...
Desintegrar o sagrado com o poder da lógica não é negar o mistério, mas recusar sua manipulação. É não aceitar o dogma como destino, o mito como verdade, o símbolo como prisão. A lógica, nesse sentido, é uma forma de libertação: ela desnuda o sagrado para que ele possa, talvez, reencontrar sua verdade — não mais como imposição, mas como escolha. O desafio, então, é usar a lógica como lâmina, não como lápide. Que ela corte o que é falso, mas preserve o que é vivo.