Como quem fecha a porta do passado, puxei a cortina da janela e, diante do espelho, corri o pente às margens da calvície. No reflexo, os seios de Vênus aprisionados, e no pensamento, não contive minha obsessão.
“Que
obsessão de seios!” — murmurei. Eros, vencido e adormecido, ainda nutria forças
para sonhar com a beleza dela. Dei asas à imaginação, como se voasse numa nave
espacial perdida no infinito.
Pensei
no princípio, quando o mundo era vazio, cheio de abismos e sombras, Eros
poderia ter sido criador dos viventes, racionais e irracionais. Que cena
fantástica faria com sua magia! No palco do Olimpo pousaria, e as estrelas,
cúmplices, acenderiam jogos de luzes.
Então,
Eros, a estrela do teatro universal, interpretaria a criação para o auditório
vazio da Terra. Com sua vara de condão, gestos suaves de um maestro romântico,
regeria a orquestra imaginária tocando cantatas venezianas, ecoando no espaço.
A
vara mágica dançaria, explodindo o pó da vida, quantidades astronômicas em
delírio. Num orgasmo cósmico, Eros extravasaria sua energia, soltando
gargalhadas eternas, vibrações que se espalhariam pelas galáxias e pelos
abismos infinitos.
“Eis
o mundo vivo, fruto do amor e do prazer, como deveria ser a vida: Amor e
Prazer, os elementos básicos da sobrevivência e do conhecimento.”
Josué
Gonçalves de Araujo
Comentários
Postar um comentário