Como quem fecha a porta do passado, puxei a cortina da janela e, diante do espelho, corri o pente às margens da calvície. No reflexo, os seios de Vênus aprisionados, e no pensamento, não contive minha obsessão. “Que obsessão de seios!” — murmurei. Eros, vencido e adormecido, ainda nutria forças para sonhar com a beleza dela. Dei asas à imaginação, como se voasse numa nave espacial perdida no infinito. Pensei no princípio, quando o mundo era vazio, cheio de abismos e sombras, Eros poderia ter sido criador dos viventes, racionais e irracionais. Que cena fantástica faria com sua magia! No palco do Olimpo pousaria, e as estrelas, cúmplices, acenderiam jogos de luzes. Então, Eros, a estrela do teatro universal, interpretaria a criação para o auditório vazio da Terra. Com sua vara de condão, gestos suaves de um maestro romântico, regeria a orquestra imaginária tocando cantatas venezianas, ecoando no espaço. A vara mágica dançaria, explodindo o pó da vida, quantidades astronômic...
Desintegrar o sagrado com o poder da lógica não é negar o mistério, mas recusar sua manipulação. É não aceitar o dogma como destino, o mito como verdade, o símbolo como prisão. A lógica, nesse sentido, é uma forma de libertação: ela desnuda o sagrado para que ele possa, talvez, reencontrar sua verdade — não mais como imposição, mas como escolha. O desafio, então, é usar a lógica como lâmina, não como lápide. Que ela corte o que é falso, mas preserve o que é vivo.